Quando perguntavam seu nome, ele respondia sem pressa:
— Edivaldo Aparecido Magro.
Fazia uma pequena pausa antes de continuar.
— O "Aparecido" quase nunca uso. Mas nunca deixei de carregar.
Era uma herança dos pais. O pai já havia partido, a mãe permanecia viva, guardando a mesma fé que um dia fizera os dois escolherem aquele nome em homenagem à santa. O sobrenome era Magro. O resto era história.
E histórias nunca lhe faltaram.
Chegara a Maringá em 1975, quando as geadas haviam queimado os cafezais e mudado para sempre a paisagem do norte do Paraná. A cidade parecia recomeçar junto com milhares de famílias. Havia barro onde depois surgiriam avenidas, havia esperança onde antes existia apenas terra escura.
Entrou para o jornalismo anos mais tarde.
Naquele tempo, ser repórter era gastar sola de sapato.
As máquinas de escrever batiam como locomotivas. O café era forte. Os cigarros desenhavam uma névoa permanente nas redações. As notícias tinham cheiro de tinta antes mesmo de chegarem às bancas.
Foi setorista da Câmara Municipal.
Hoje, a palavra quase desapareceu. Mas havia um tempo em que um setorista conhecia o prédio melhor do que muitos vereadores. Sabia onde terminava cada corredor, qual porta guardava uma reunião decisiva e qual local um assessor falaria longe dos microfones.
Descobriu cedo que as decisões mais importantes raramente começavam no plenário.
Começavam antes.
Num café.
Num corredor.
Num telefonema.
Num silêncio.
Ele aprendia a ouvir.
Enquanto a maioria enxergava apenas a votação, ele observava os minutos anteriores. Descobria projetos antes de chegarem às comissões. Percebia quando um vereador mudava de opinião pelo jeito de apertar a pasta contra o peito. Aprendeu que um olhar podia valer mais do que um discurso inteiro.
A Câmara parecia um teatro.
O plenário era apenas o palco.
Os bastidores escreviam a peça.
Foi assim no aumento do IPTU. Foi assim em tantas outras votações. Havia noites em que a cidade dormia sem imaginar que, atrás das portas de madeira daquele prédio, alguém decidia quanto custaria viver nela no ano seguinte.
Edivaldo anotava tudo.
Nem sempre podia publicar.
Essa era a parte mais pesada da profissão.
Existiam documentos que chegavam cedo demais.
Denúncias que não encontravam coragem suficiente.
Histórias que morriam na gaveta de um editor.
Durante muitos anos, aquilo lhe pesou mais do que qualquer derrota porque o jornalista convive com uma estranha condenação: às vezes conhece parte da verdade, mas não consegue entregá-la inteira.
Ainda assim, continuava voltando.
A Câmara mudava de endereço.
As cadeiras ficavam mais confortáveis.
As câmeras surgiram.
As transmissões ao vivo chegaram.
As telas multiplicaram a informação.
Mas algo diminuía.
As pessoas.
O velho plenário, pequeno e apertado, parecia receber mais cidadãos do que o edifício moderno.
Era um paradoxo.
Quanto mais fácil ficou acompanhar a política, menos gente parecia interessada nela.
Certa vez resolveu fazer uma experiência.
Perguntou a um grupo de pessoas onde funcionava a Câmara.
Poucos sabiam responder.
Perguntou quantos vereadores existiam.
As respostas variavam.
Perguntou quando aconteciam as sessões.
Silêncio.
Voltou para casa pensando que talvez o maior problema da democracia não fosse a falta de informação.
Talvez fosse o excesso dela.
As notícias chegavam em avalanche.
Mas entendimento era outra coisa.
Enquanto isso, Maringá crescia.
Prédios brotavam como árvores de concreto.
Novos bairros surgiam.
As avenidas enchiam de carros.
Falava-se em tecnologia, data centers, grandes projetos.
Mas ele continuava olhando para o transporte coletivo.
Para a periferia.
Para o lixo.
Para as áreas verdes.
Para as pessoas que atravessavam duas horas de ônibus para ganhar um salário que mal pagava a passagem.
Aprendera que uma cidade podia parecer perfeita quando vista do alto.
Mas o jornalismo se fazia na altura dos olhos.
Também assistiu às cenas que depois virariam folclore político.
O vereador que arrancou a camisa para impedir uma votação.
Outro que escapou pelas escadas.
As reuniões escondidas pouco antes das sessões decisivas.
Os acordos fechados longe das câmeras.
Sabia que esses episódios chamavam atenção.
Mas os verdadeiros acontecimentos eram menos espetaculares.
Estavam nas pequenas concessões.
Nas votações silenciosas.
Nos projetos aprovados às pressas.
Nos detalhes que quase ninguém lia.
O tempo passou.
Vieram os computadores.
Depois a internet.
Depois os celulares.
Depois a inteligência artificial.
As redações encolheram.
Os repórteres passaram a escrever, filmar, editar, publicar e responder comentários ao mesmo tempo.
Quase não sobrava espaço para investigar.
Sentia falta da rua.
Da madrugada.
Da conversa longa.
Do caderno cheio de rabiscos.
Dizia que o jornalismo romântico havia morrido.
Mas, no fundo, sabia que nenhuma tecnologia conseguiria substituir uma pergunta feita olhando alguém nos olhos.
Agora, com os cabelos completamente brancos, descobria-se olhando mais para trás do que para frente.
Não por nostalgia.
Mas porque o retrovisor também ensina.
Pensava nas reportagens que conseguiu publicar.
Nas que nunca saíram.
Nas denúncias que mudaram alguma coisa.
Nas que permaneceram escondidas.
Perguntava a si mesmo, em silêncio, se havia feito o suficiente.
Nunca encontrava uma resposta definitiva.
Mesmo assim, quando caminhava pelas ruas arborizadas de Maringá, sentia um orgulho discreto.
Conhecera muitas cidades.
Poucas tinham aquela beleza.
Poucas despertavam tamanho afeto.
Talvez justamente por isso insistisse tanto em criticá-la.
Quem ama uma cidade não deseja apenas contemplá-la.
Deseja melhorá-la.
Numa tarde qualquer, voltou ao plenário.
As cadeiras continuavam ali.
Os microfones também.
As telas agora eram maiores.
As câmeras mais modernas.
Sentou-se no fundo, onde costumava observar tudo.
Pouca gente ocupava a plateia.
Lá na frente, um vereador falava para um plenário quase vazio.
Edivaldo sorriu.
As paredes pareciam exatamente as mesmas.
Porque elas nunca esqueceram.
Elas ainda guardavam todas as vozes.
As que ecoaram pelos microfones.
E, principalmente, aquelas que só puderam ser ouvidas por quem fez do silêncio uma profissão.